Retrópolis

Ricardo de Medeiros Andrade

                Ah!…

                               Você!… Que surpresa agradável!…

Não repare a bagunça

                                             ainda estamos organizando as coisas.

               Mas, até que enfim!!

                               Finalmente, podemos dizer…

                                           Bem-vindo a

                                                      Retrópolis!…

A Terra das Oportunidades.

O Mundo Maravilhoso da Fantasia.

O País das Maravilhas.

Uma terra de sonho e aventura.

Um paraíso tropical ao alcance das suas mãos, com jovens nativas e dadivosas prontas a ofertar-lhe suas graças mais preciosas.

Não, esses aí são outros lugares. Nunca ninguém chamou Retrópolis de nada disso aí, não.

Se bem que a gente gostaria muito de saber onde é esse lugar das nativas dadivosas. “Dadivosas” parece ser uma coisa legal [1].

Mas, divagamos.

Na verdade, ninguém fora de Retrópolis nunca falou muita coisa sobre Retrópolis, não. E a gente aqui em Retrópolis também pouco fala de Retrópolis — é que nem o seu próprio número de celular: você liga pra ele? Pois é, é sempre aquele que você nunca lembra, de primeira…

Não, não tem nada a ver, não. Esquece que a gente falou isso [2].

A questão é que Retrópolis não é exatamente conhecida. É como o Segundo Mundo. Tipo, todo mundo sabe onde fica o Primeiro Mundo (e quer ir pra lá), e todo mundo sabe onde fica o Terceiro Mundo (e quer sair de lá).

E o Segundo Mundo? Alguém sabe onde fica?

É legal lá?

Aí: vai que é uma boa, hein? Se duvidar, o Segundo Mundo é quase tão maneiro quanto o Primeiro Mundo, só que tem pouca gente querendo se mudar pra lá, e fica mais fácil. Olha só, hein? De repente, estamos dando uma boa ideia aí.

Enfim, se alguém souber de alguma coisa, avisem a gente aqui. A gente que deu a ideia.

Então, Retrópolis é tipo o Segundo Mundo, a gente dizia.

Ou mais como a Atlântida, a Terra de Mu, a Ilha de Hy-Brasil e o Acre. Porque, ou todo mundo acha que não existem, ou nunca ouviram falar.

O detalhe é que Retrópolis, a Atlântida, a Terra de Mu e a Ilha de Hy-Brasil existem de verdade.

Hein? Não, o Acre, não.

Sério, o Acre não existe.

Quem te falou que existe? Você conhece alguém que tenha ido lá? Já ouviu falar de alguma coisa que aconteceu no Acre? Não tem prova científica de nada disso, não. Isso de Acre é coisa da sua cabeça.

Tipo, até o Espírito Santo é mais provável do que o Acre.

Não, pera. Acabamos de receber uma notícia inesperada, senhoras e senhores: o Acre EXISTE. Contra todas as expectativas. Repetimos: o Acre EXISTE, de fato. O Acre acaba de ser descoberto — e fica em Retrópolis. Repetimos: em RETRÓPOLIS! [3] O que explica muita coisa.

Bom, não admira que ninguém achasse o Acre. Estava todo mundo procurando no lugar errado. E nós, aqui de Retrópolis, não estávamos procurando porque não sabíamos que o Acre estava aqui [4]. A vida tem dessas coisas.

Mas o fato é que, agora, todo cidadão acreano passa automaticamente a ser cidadão retropolitano. Agora, resta saber se os acreanos existem, mesmo, ou se são uma lenda. Precisamos enviar a cada um os boletos com os impostos a serem recolhidos [5].

A cobertura completa dessa sensacional reviravolta histórico-geográfica no mundo das lendas e outras coisas que não existem, você verá em breve, aqui mesmo, nas páginas desse periódico[6].

Não pomos a mão no fogo pelo Espírito Santo, não. O Estado, bem entendido. Voltamos à nossa programação normal.

Mas nós falamos em periódico.

É que a gente refletiu que não fazia sentido Retrópolis aqui, tão próxima de nosso vizinho mais famoso[7] e, ao mesmo tempo, tão desconhecida dos brasileiros. E tão solitária. O Brasil aí, tão grande, tão quente, tão pujante, e Retrópolis aqui, toda em frêmitos, esperando ser desvelada em sua pureza, e ter seus mistérios virginais e intocados finalmente tocados (quiçá com alguma rusticidade máscula), para que esse colóquio exploda em múltiplas ondas de harmonia entre nações.

Por incrível que pareça, essa nossa reflexão nos levou a criar esse site aqui em que estamos [8]. Um lugar para divulgarmos Retrópolis e suas belezas, seus pontos turísticos, suas curiosidades históricas.

E, claro, sua rica produção cultural. Temos muitos artistas aqui em Retrópolis. Muitos até talentosos. Todos pobres, coitadinhos. É uma lástima, morremos de dó. Felizmente, é uma festejada tradição retropolitana apoiar a arte [9], e é isso que este site também fará.

Agradecemos aqui a ajuda da maravilhosa Ilha Kaijuu, onde está sediada a sensacional Editora Kaijuu, esse oásis onde artistas ainda em botão podem vicejar e florescer[10]. A generosa Ilha Kaijuu nos cedeu esse cyberespaço para que pudéssemos realizar nosso trabalho de relações internacionais e divulgação artística. São nossos amigos queridos, de quem sempre falaremos com carinho, e a quem ajudaremos no que precisarem [11].

Aqui, um comentário. Quando nos dispusemos a criar este site, disseram-nos que não havia a mínima chance de sucesso. Que as pessoas não liam na internet. Que ninguém iria se dar ao trabalho de ler um texto de mais de cinco linhas em uma tela de computador, ou em um celular, ou tablet.

Se isso for verdade, então, você nem mesmo chegou até este ponto deste texto. Mas se você chegou, é porque eles estão errados. Nós convidamos você a provar que eles estão errados.

Prove que ainda há quem leia na internet.

Prove que ainda há quem busque vida inteligente na internet.

Não há de ser aqui que vão encontrar, lógico…

                                        …mas tem algum lugar melhor

                                                                                                 para começar a procurar

                                                                 que não aqui, em

                                                                                      Retrópolis?

P.s.: A propósito, fomos ao Google. “Dadivosas” é, tipo, bem legal mesmo. Se alguém souber onde é aquele tal lugar, por favor, cartas à redação.

Até breve.

[1] E essa coisa das “graças”. Se não for negócio de stand-up, é legal. Nada contra stand-up, mas é que a gente estava pensando em outro tipo de “graças”.

[2] Não, é que nem você falar de você mesmo pra você mesmo, entende? “Ah, eu tenho um nariz grande”, “ah, eu estou ficando seriamente careca”… Não, nada a ver. Esquece que a gente falou isso.

[3] Realmente não sabemos por que estamos repetindo tanto, já que não é o caso de alguém não conseguir ouvir bem da primeira vez — estamos escrevendo, certo? Se a pessoa tiver dificuldade em entender o que escrevemos, é uma questão de ler de novo, ou aumentar o tamanho da fonte. A gente faz coisas assim, não repara, não. Mas estamos nos medicando.

[4] E é longe, viu? O Acre fica lá depois de Guarambituba, na região Norte de Retrópolis. Tipo, DEPOIS de Guarambituba, beeem pra lá. Passa pelas VERDADEIRAS ruínas de Troia, passa pelo lugar onde ficam as Minas do Rei Salomão (ele jura que não tem nada a ver, que são só amigas dele), e ainda tem que andar um bom pedaço. É meio longe, mesmo, bem fora de mão. Natural que ninguém achasse. Ônibus a cada duas horas. Se não chover.

[5] Desconfiamos que os acreanos vão se tornar automaticamente muito difíceis de serem encontrados.

[6] Ah, não falamos ainda que isso aqui vai ser um periódico. Já, já, a gente fala disso. Relaxa.

[7] Estamos falando do Brasil. Tipo, vocês aí. Não finjam que não estão entendendo.

[8]     Não, não é um site erótico… Por que a pergunta?

[9]     Na verdade, sendo absolutamente sinceros, a gente está gastando muito com café para a redação. Precisamos que esses destituídos possam contribuir com grana também. Não há tantos banheiros assim para eles lavarem, e vai ser legal se pelo menos alguns deles arrumarem um lugar para dormir que não seja o corredor que vai pra cozinha. Então, Brasil, qualquer ajuda será bem-vinda. Contamos com vocês.

[10]    Se não vicejarem e florescerem, serão devorados pelos porcos, como no filme Hannibal — mas isso eles não precisam saber, né? Não é o tipo de conhecimento que ajuda a criatividade, achamos.

[11]    Mesmo porque morremos de medo de porcos. E vai lá ver o que significa “Kaijuu”. Não duvidamos nadinha que Godzilla more lá, e eles estão a um pulinho de Retrópolis. No caso de Godzilla, “um pulinho” é uma descrição bastante precisa.

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