HK2
Hakaba Kitarou, Vol. II

Hakaba Kitarou (Kitarou do Cemitério) é uma história em quadrinhos escrita e ilustrada por Mizuki Shigeru (1922-2015) e publicada em três volumes no formato de livros para aluguel em 1960 pela editora Togetsu-Shobou. Após uma disputa sobre pagamentos entre Muzuki e seu editor, o autor passou a publicar a continuação dessas histórias sob título Kitarou Yawa (Histórias Noturnas do Kitarou) pela editora Sanyou de 1960 a 1961 até retornar para Hakaba Kitarou na Togetsu-Shobou de 1962 a 1964, quando migrou com o título para a revista alternativa Garo. Em 1965 Mizuki passou a publicar o título na revista Shounen Magazine sob o nome Hakaba no Kitarou, até alterá-lo em 1967 para Gegege no Kitarou, nome pelo qual foi publicado até 1970. Mizuki ainda produziu Shinpen Gegege no Kitarou (Gegege no Kitarou Nova Edição) entre 1986 e 1987 e várias edições especiais e história derivadas, bem como foram publicadas edições especiais produzidas por diferentes autores.

Entretanto a origem do protagonista da série, Kitarou, vem do Kamishibai. O Kamishibai é um tipo de teatro de rua itinerante que foi popular no Japão durante a década de 1930 em que um narrador/contador de histórias se apresentava utilizando um palco miniatura no qual eram exibidas ilustrações que eram alternadas conforme o desenrolar da narrativa. Entre 1932 e 1933, Itou Masami escreveu uma peça de kamishibai intitulada Hakaba Kitarou, cujas ilustrações foram realizadas por Tatsumi Keiyou. A peça de Itou era baseada em uma narrativa popular japonesa conhecida como Kosodate Yuurei (Fantasma que zela pelo filho) ou Ame-kai Yuurei (Fantasma que compra doces). Tal lenda fala de uma mulher de aparência pálida que aparece diante de um vendedor de doces e pede alguns itens fazendo-o acompanhá-la até um cemitério. Ao chegar ao cemitério, a mulher desaparece, e o vendedor de doces percebe-se diante do túmulo dela. A mulher teria morrido alguns dias antes grávida, e o vendedor se depara com um bebê que acabara de cavar para escapar do túmulo da mãe morta. Poucas das ilustrações de Hakaba Kitarou de Itou e Tatsumi perduraram, mas a narrativa da obra tinha como protagonista o bebê sobrevivente nomeado como Kitarou em uma história sobre vingança.

Kamishibai
Kitarou no kamishibai de Itou, c. 1933
Kitarou
Kitarou, versões de Tatsumi (1932) e Mizuki (1954)

Em 1954 Mizuki foi contratado para produzir novas peças de kamishibai com o protagonista de Hakaba Kitarou. Mizuki era natural da cidade periférica de Sakaiminato. Na escola foi um aluno problemático, tendo desistido dos estudos várias vezes. Havia estudado pintura até ser convocado para servir no exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Como soldado, foi enviado para a região de Papua-Nova Guiné, acabou sendo capturado tornando-se prisioneiro de guerra e perdeu seu braço esquerdo em um bombardeio. Após a guerra, passou a estudar na Universidade de Artes de Musashino em 1948, apesar de não se formar, e teve vários empregos até tornar-se ilustrador de kamishibai por volta de 1951. Quando foi encarregado de produzir novas peças de Hakaba Kitarou, pediu autorização para Itou, entretanto sua versão do personagem diferenciava da de Itou, com o protagonista nascendo da barriga de uma serpente e tentando se vingar de quem o maltratava. Enquanto na versão desenhada por Tatsumi o personagem Kitarou possuía o olho direito esbugalhado e o olho esquerdo menor, Mizuki desenhou sua versão com o olho direito grande como padrão e sem o globo ocular esquerdo, havendo apenas uma cicatriz no local. Dessa primeira produção de Mizuki com o personagem, pouquíssimos dos desenhos sobreviveram.

Em 1960 Mizuki passou a produzir histórias em quadrinhos. No Japão pós-guerra, devido à escassez de matérias primas e as dificuldades econômicas, os livros eram produtos caros aos quais poucas pessoas tinham condições de adquirir. Nesse contexto de altos preços dos livros e para suprir a demanda da população por leitura, criou-se um mercado de livros produzidos para estabelecimentos que os alugavam. Muitos desses livros eram exclusivos para lojas de aluguel de publicações e incluíam obras de histórias em quadrinhos. Mizuki passou a trabalhar justamente para editoras de publicações exclusivas para aluguel, e nelas iniciou sua versão em histórias em quadrinhos de Hakaba Kitarou. Nessa versão em quadrinhos, Mizuki manteve elementos iconográficos da sua versão de kamishibai de Hakaba Kitarou, mas na trama recuperou os elementos desenvolvidos por Itou e o vínculo do personagem com o mito da Kosodate Yuurei.

IMG_3261
O cantor Trump Nagai encontra Nezumi Otoko no último trem da madrugada.

Apesar da história de origem do personagem ter sido reescrita algumas vezes para diferentes editoras, e os próprios personagens ao contá-las para outros personagens em HQs com narrativas em mise em abyme omitindo ou acrescentando detalhes a cada vez que as narravam, a premissa geral se manteve estável. Em 1954, um funcionário de um banco de sangue com problemas financeiros chamado Mizuki — personagem que possui o mesmo nome adotado pelo autor — percebe que estão com falta de um tipo sanguíneo específico e recebe ordens de seu chefe de seguir até o endereço de uma doadora regular que há tempos não aparecia. Mizuki chega na casa e descobre um casal pobre e moribundo que são os últimos sobreviventes de uma tribo youkai. Iwako, a esposa do casal, estava grávida e vendia seu sangue para juntar recursos para criar seu filho, mas agora estava muito doente. Mizuki promete pensar em algo para ajudar o casal, mas quando volta encontra-os mortos e os enterra. Na noite seguinte, Mizuki é mais uma vez atraído até a casa e é recebido pelo fantasma de Iwako, mas foge antes de ouvi-la. Sentido-se culpado, volta até a casa e descobre que o túmulo de Iwako fora escavado de dentro para fora, e de lá saiu um bebê youkai estranho e sem o olho esquerdo. Mizuki primeiro pensa em matar o bebê para que não sofresse, mas entra em conflito e o abandona. Durante a madrugada, o fantasma do marido de Iwako incorpora o globo ocular do próprio cadáver e leva o bebê até a casa de Mizuki, que desperta com o bebê ao seu lado e decide criá-lo e o batiza de Kitarou. Quando Kitarou está com seis anos de idade, Mizuki descobre que ele sai de casa escondido durante a noite. Em uma dessas noites, Mizuki o segue até um cemitério pelo qual Kitarou e o fantasma de seu pai conseguem viajar até o inferno/mundo dos mortos. Mizuki acaba acidentalmente cruzando o portal e ficando preso no inferno, do qual Kitarou posteriormente o resgata. A partir daí, o autor passa a narrar as histórias de Kitarou e outros personagens misturando temática sobrenatural com elementos do cotidiano.

IMG_3263
Mizuki conta para Trump Nagai suas experiências envolvendo youkai.
3
Mizuki encontra Kitarou no túmulo de Iwako.

Para entendermos a importância da obra de Mizuki é necessário antes examinarmos as influências que teve. Mizuki realizou muitos trabalhos de pesquisa na área da História e dos estudos folclóricos. Várias de suas obras em histórias em quadrinhos tratam de biografias e da obra de personagens históricos, como Adolf Hitler (1889-1945) e Arthur Conan Doyle (1859-193), e também com temáticas de denuncia social, como as condições dos soldados convocados contra a vontade para servirem no exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial e os crimes praticados pelo exército japonês em países estrangeiros. Entretanto é sua pesquisa sobre folclore, mitologia e cultura popular o que nos interessa neste contexto. Mizuki foi um dos fundadores da Sekai Youkai Kyoukai (Sociedade Youkai Mundial) e em 1991 publicou a primeira edição de Nihon Youkai Taizen (Enciclopédia de Youkai Japoneses), além de ser autor de vários outros livros teóricos sobre o tema.

4
Mizuki é acidentalmente transportado ao inferno.
20
Betobeto-san, um dos youkai catalogados por Mizuki.

O trabalho de Mizuki como pesquisador envolveu a redescoberta de textos antigos sobre youkai, realização de registros de contos e lendas que ainda eram transmitidos apenas de maneira oral em diferentes regiões do Japão, e execução das primeiras ilustrações de lendas que existiam na forma de texto ou narrativa oral, mas que não eram conhecidas representações em desenhos ou pinturas. Mizuki viajou pelo Japão coletando dados, fontes primárias e registros orais com o objetivo de recuperar e preservar mitos populares e narrativas regionais que estavam prestes a se perderem no Japão contemporâneo. E esse trabalho de pesquisa foi publicado em diversos livros em que o autor reuniu apanhados da cultura popular japonesa e os catalogou, bem como serviu de inspiração e base para outros pesquisadores. O trabalho de Mizuki acabou servindo como uma ponte que permitiu que narrativas do Japão antigo migrassem e sobrevivessem nas mídias atuais.

19
Amibouzu, youkai catalogado por Mizuki.
24
Mizuki Shigeru e sua coleção de máscaras de youkai
non
Mizuki Shigeru ao lado da estátua de Kageyama Fusa na Mizuki Shigeru Road

O interesse de Mizuki pelo mundo dos youkai surgiu em sua infância com o contato com Kageyama Fusa — a quem Mizuki chamava pelo apelido carinhoso NonNonBa —, uma idosa que trabalhava na casa da sua família e que era filha de um ashigaru, uma categoria samurai de baixa hierarquia que atuava como infantaria. Sendo de uma família samurai, mesmo de baixo poder político e econômico, Kageyama possuía certo conhecimento sobre cultura e tradições, e comumente as crianças da região se reuniam ao redor dela para ouvir suas histórias. Apesar de Kageyama ter morrido quando Mizuki era ainda bem jovem, ela e suas histórias sobre mitos e contos populares acabaram tendo grande influência na formação de Mizuki e despertando seu interesse sobre o tema que depois se manifestaria na sua atuação como escritor, desenhista e pesquisador. A relação de Mizuki com Kageyama foi contada pelo próprio autor no ensaio biográfico NonNonBa to Ore (NonNonBa e Eu) de 1977, que posteriormente foi adaptado pelo autor como história em quadrinhos e ganhou uma adaptação para série de televisão em 1992.

5
Aos sete anos de idade, Kitarou vende cabeças de gatos para ajudar na renda familiar.
saci
Saci-Pererê por Mizuki

O conceito de youkai deriva de alguns aspectos do Xintoísmo, a religião ou conjunto de crenças, tradições e concepções filosóficas e de espiritualidade originários da pré-história japonesa. O Xintoísmo é uma tradição fortemente animista, e tal herança animista continuou presente na cultura geral japonesa, tradicionalmente sincrética, mesmo após a chegada do budismo e de outras religiões institucionalizadas no Japão. A interpretação animista do Xintoísmo tende a entender uma potencial condição de agente ou sujeito presente em fenômenos da natureza, alegorias que personificam abstrações, animais, vegetais e objetos inanimados. Assim, uma árvore centenária, um rio ou uma floresta podem ser interpretados dentro das práticas xintoístas como sujeitos que podem agir como espíritos guardiões ou divindades protetoras de uma região, atividade ou grupo social. Bem como objetos inanimados, ao receberem alguma carga emocional forte ou por um período prolongado de tempo, podem despertar uma consciência e personalidade própria e se tornarem sujeitos, os chamados mononoke. Basicamente, o conceito de youkai contempla todas essas manifestações sobrenaturais possuidoras de personalidade, sejam personificações de forças naturais, animais únicos com características fantásticas, fantasmas, oni, tengu e outras criaturas mitológicas japonesas. Por exemplo, em sua lista de “youkai estrangeiros”, Mizuki classifica como youkai o personagem folclórico brasileiro Saci-Pererê, que chega a fazer uma participação em um dos capítulo de Gegege no Kitarou e em outra história em quadrinhos do autor chamada Akuma-kun (Menino Diabo, em tradução livre).

6
Na escola, Kitarou é perseguido por Neko Musume (Moça Gato).

Outra importante influência para Mizuki é o trabalho de Akutagawa Ryuunosuke (1892-1927). Akutagawa foi um importante escritor do modernismo japonês e um dos pioneiros do formato conto moderno no país. Akutagawa era versado em literatura chinesa e literatura clássica japonesa. Em sua produção, deliberadamente rejeitou várias tradições e convenções estéticas da arte do período dos samurai e buscou inspiração no Japão clássico da Era Heian (794-1185) vendo nesta produção elementos próximos de estéticas pregadas pelos movimentos modernistas. Vários de seus contos eram releituras ou reinterpretações na modernidade de narrativas clássicas e populares, incluindo histórias de youkai, que eram apresentados combinados com representações e denúncias dos períodos calamitosos da história japonesa, como situações de guerra, doenças e pobreza da população. Seu primeiro conto publicado foi Rashoumon, de 1915, no qual faz uma releitura de um conto popular envolvendo youkai combinado com o contexto de miséria da população de Heian-Kyou — atual Kyouto — do século XII, na qual guerras, peste, terremotos e seca ocorreram simultaneamente. Rashoumon foi combinado com outro conto de sua autoria que também trata dessas temáticas, Yabu no Naka (Dentro do Bosque) de 1922, para a criação do roteiro do filme Rashoumon de 1950 de Kurosawa Akira (1910-1998).

7
Nezumi Otoko e Nise Kitarou (Falso Kitarou)

Akutagawa e Mizuki usaram como inspiração para seus trabalhos o Konjaku Monogatarishuu (Coletânea de Contos de Agora Faz Muito Tempo, em tradução livre), uma coletânea originalmente contendo trinta e um volumes — dos quais quatro foram perdidos — que ganhou sua forma final escrita por volta da primeira metade do século XII e com a autoria incerta, apesar de vários estudos apontando possíveis autores. O Konjaku Monogatarishuu originalmente tratava-se de uma série de narrativas que eram usadas como parábolas para sermões por monges budistas e exemplos de condutas. Os cinco primeiros volumes se originaram na Índia e contêm contos sobre bodhisattvas e monges budistas indianos de conduta exemplar. Tais narrativas foram levadas até a China, onde novas narrativas foram acrescentadas sobre monges e figuras exemplares chinesas que estão contidas nos cinco volumes seguintes do Konjaku Monogatarishuu. Tais narrativas chegaram ao Japão trazidas com o Budismo, onde ganharam novas histórias que contemplam os demais vinte e um volumes. Nessas narrativas originadas no Japão, a princípio tratavam-se de temas de importantes monges budistas japoneses e outras figuras santas e exemplares. Entretanto passaram a ser acrescentadas também histórias japonesas de figuras não sagradas, muitas vezes tendo como protagonistas andarilhos, mendigos e ladrões, como também as narrativas sobre causos fantásticos, incidentes sobrenaturais, mitos dos mais variados tipos de youkai e histórias de terror. São justamente essas histórias fantásticas e sobrenaturais no Konjaku Monogatarishuu, que são a fonte escrita mais antiga da narrativa de vários youkai, que foram reinterpretadas nas histórias de Akutagawa e Mizuki e que são a fonte escrita que originou toda a tradição do terror japonês. O conto sobre o assassinato ocorrido no bosque, Yabu no Naka, que é a narrativa central do filme Rashoumon é uma das obras de Akutagawa que são releituras de contos presentes no Konjaku Monogatarishuu.

8
Em um de seus planos, Nezumi Otoko convence Nise Kitarou a assassinar Neko Musume jogando-a de uma ponte.

Algo em comum entre as histórias fantásticas do Konjaku Monogatarishuu, os contos de Akutagawa e as histórias em quadrinhos de Mizuki é a abordagem dos temas sobrenaturais, mas de forma que ele se misturam com o cotidiano da vida da população de baixa classe econômica. A grande maioria das histórias em quadrinhos de Mizuki com temática de youkai também trata da questão da pobreza e da difícil condição de vida da população comum japonesa. Mesmo quando a pobreza mostrada é ambientada na Era Heian ou nos camponeses do período dos shogun Tokugawa, ela é sempre uma figura de linguagem para tratar da situação dos japoneses em dificuldades financeiras do período pós-guerra. O próprio personagem Mizuki, que cuidou de Kitarou em sua infância, vivia com o garoto youkai em uma casa precisando de inúmeros reparos, enquanto Kitarou era repreendido pelo seu professor na escola por não copiar o conteúdo da aula sendo que não o tinha feito por falta de dinheiro para comprar um lápis.

9
Medama Oyaji, o fantasma do pai de Kitarou, deixa-se ser atropelado para viajar ao inferno.
NK
Nihon Kijinden, 1966

As HQs de Mizuki sobre youkai produzidas na década de 1960 têm como ponto comum a relação do fantástico sobrenatural com o ordinário do cotidiano do cidadão comum e sem recursos tentando sobreviver a momentos de crise. Vários de seus protagonistas são pessoas em difíceis condições de sobrevivência que se deparam com elementos sobrenaturais, tentam se valer deles para mudar de vida e são levados a perder tudo por agirem com ganância ou que passam despercebidos por uma oportunidade. Mesmo diante do maravilhoso, muitas vezes os defeitos de caráter dos personagens humanos de Mizuki acabam se sobrepondo e os fazem perder a chance de uma vida melhor. Uma dessas obras é a coletânea Nihon Kijinden (Lendas de Pessoas Extraordinárias do Japão, em tradução livre) publicada em 1966. Essa história em quadrinhos tem o mesmo título de um livro ilustrado publicado no século XIX escrito por Hanagasa Bunkyou (1785-1860) e ilustrado pela gravador de ukiyo-e Utagawa Kuniyoshi (1797-1861), que também produziu ilustrações com temáticas de contos populares e narrativas de youkai. Enquanto a versão de Hanagasa e Utagawa tratava de personalidades históricas famosas do Japão da antiguidade, a versão em história em quadrinhos de Mizuki apresenta várias narrativas curtas passadas em diferentes momentos históricos, indo da Era Tokugawa até o Japão contemporâneo, nos quais pessoas de classes sociais mais baixas têm seus cotidianos modificados por eventos sobrenaturais inesperados que muitas vezes resultam em finais que surpreendem o leitor. Cada capítulo apresenta uma narrativa diferente, mas que sempre coloca o fantástico em contraste com o ordinário das pessoas em dificuldade.

Nihon
Nihon Kijinden de Hanagasa Bunkyou e Utagawa Kuniyoshi, século XIX
10
Garoto camponês da Era Tokugawa encontra uma pedra mágica de Marte em Kuusou Seiki (A Pedra da Ilusão).

A obra de Mizuki tem dois grandes protagonistas principais: Kitarou, o menino youkai nascido no túmulo da mãe morta que foi criado por um humano e tenta ajudar as pessoas ao redor enquanto passa pelos descobrimentos da vida mundana e sobrenatural e ocasionalmente é explorado em sua inocência, e Nezumi Otoko (Homem-Rato), um filho de um humano e um youkai que está sempre sujo, com fome e vestindo trapos, que tenta sempre tirar proveito das situações e das pessoas e que vaga pelo Japão pelo menos desde o século XVII, ambos sempre sem dinheiro. Os dois personagens têm uma característica em comum: devido às condições específicas de suas origens, são indivíduos híbridos que têm acesso e podem circular tanto na sociedade humana como na comunidade youkai, o que os faz excelentes personagens para serem usados como fios condutores entre os dois temas das narrativas de Mizuki. Enquanto Kitarou acaba sendo a ponte entre humanos e youkai na resolução de conflitos, criando situações que levam sujeitos de um dos contextos para passar por estranhamentos no outro lado e em algumas vezes atuando como um herói, Nezumi Otoko tem uma função diferente. Em algumas histórias, Nezumi Otoko é um personagem ativo, auxiliando ou atrapalhando Kitarou ou passando por narrativas próprias, mas muitas vezes ele atua como personagem de fundo, coadjuvante, aparecendo no início praticando ações que desencadeiam efeitos sobre o personagem que logo em seguida assume o centro da narrativa, fazendo as apresentações introdutórias ou encerramentos. Algumas das HQs biográficas ou de temática histórica de Mizuki têm Nezumi Otoko como narrador. O personagem acaba servindo como um tipo de anfitrião ou mestre de cerimônias que pode ou não assumir algum papel mais direto na narrativa. Esse tipo de função de anfitrião era muito comum em histórias em quadrinhos de terror estadunidenses da década de 1950, principalmente as publicadas pela EC Comics entre 1950 e 1955, como Tales from the Crypt, The Vault of Horror e The Haunt of Fear, com seus personagens The Crypt-Keeper, The Vault-Keeper e The Old Witch. O que nos leva a outra importante influência no trabalho de Mizuki.

11
Nezumi Otoko joga go com uma das encarnações de Salaryman Yamada na Era Tokugawa em Hato (O Pombo).
12
Salaryman Yamada interpreta um desenhista de manga fracassado da Era Tokugawa em Fuki no Kami (O Deus da Sorte).
Rocketman_cover
Rocketman, 1958

Enquanto Tezuka Osamu (1928-1989) havia desenvolvido um novo estilo de história em quadrinhos japonesa pós-guerra inspirando-se em características estéticas das animações estadunidenses, Mizuki fazia o mesmo, mas a partir de outras referências. A primeira história em quadrinhos de Mizuki foi Rocketman de 1958, uma história de ficção científica e super-heróis com marcantes referências a Superman de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992). Dessa forma, o estilo empregado em seu Hakaba Kitarou foi desenvolvido a partir dos modelos estéticos do estilo da Era de Ouro dos quadrinhos dos EUA. Vários de seus personagens eram representados em um abstracionismo icônico geométrico, próximo das formas das histórias em quadrinhos de super-heróis dos EUA dos anos 1940 e 1950 e com cenários que usavam sistemas de perspectiva agregado ou justaposto, no qual o espaço diegético é representado pela sobreposição de elementos que até podem usar uma disposição segundo um ponto de fuga como referência, mas que não chega a ter um único ponto como referência para todos os elementos presentes no mesmo quadro. Seus enquadramentos tentavam simular enquadramentos fotográficos, com closes e mudanças de ângulo, mas não buscavam uma representação naturalista, mas sim simulavam modelos das historias em quadrinhos da EC dos anos 1950 e no naturalismo espacial cenográfico das obras de Milton Caniff (1907-1988), nos quais eram desenvolvidos cenários complexos para preencher o fundo, mas que, se unidos, não poderiam reconstruir um espaço narrativo coerente que simulasse um espaço real, além de contar com uma representação de iluminação com influência expressionista. Também usava diagramações com requadros regulares dispostos e modelos de grade quase rígidos nos quais todos os elementos da narrativa ficavam dentro do quadro sem trespassar ou violar as margens do requadro, o que era um padrão comum na Era de Ouro. Outro característica estilística que denota influência dos quadrinhos dos EUA era que na diagramação de Mizuki, seguidamente formavam-se sarjetas em formato de esquina, resultante do encontro de quatro vértices com ângulos de 90° pertencentes a quatro diferentes quadros. Tal modelo de diagramação é comum em diferentes tradições de histórias em quadrinhos ocidentais, mas é comumente evitado em estilos japoneses pós-guerra devido a possibilidade de causar confusões de interpretação quanto se o sentido da leitura deve ser realizado horizontal ou verticalmente.

13
Dois samurai duelam até a morte por uma carteira encontrada no chão em Sora no Saifu (A Carteira Vazia).
14
Um garoto fugindo da tempestade se abriga em uma casa abandonada, mas ela era habitada pelo fantasma de um ninja em Kainin (O Ninja Youkai).

Ao longo da década de 1960, Mizuki foi se afastando dos esquemas visuais da Era de Ouro e substituindo seus personagens com estruturas de abstracionismo icônico baseados em formas geométricas mais regulares e linhas mais retas típicos do estilo da Era de Ouro por esquemas de abstracionismo icônico caricato e de formas orgânicas curvilíneas segundo o estilo desenvolvido por Tezuka. Ainda na década de 1960, Kitarou e seu pai, Medama Oyaji (Pai Globo Ocular), passaram morar na Floresta Gegege, uma floresta habitada por inúmeros youkai, que permitiu com que Mizuki montasse uma estrutura familiar para Kitarou e introduzisse novos personagens para o grupo de protagonistas. Mizuki também adotou o Star System, um modelo utilizado por Tezuka no qual imagina seus tipos visuais como atores de cinema que podem aparecer em diferentes histórias interpretando diferentes personagens. Muitos personagens das obras de Mizuki começam a reaparecer em outras obras como diferentes personagens com nomes variados e em outros contextos, mas geralmente mantendo um mesmo tipo social. Um dos tipos mais emblemáticos na obra de Mizuki é o do Salaryman Yamada, um homem baixinho, de cabeça chata, com dentes grandes e usando óculos com lentes grandes e circulares. Salaryman Yamada aparece tanto como protagonista como figurante de inúmeras histórias, muitas vezes com diferentes nomes, ocupando diferentes profissões e nos mais variados períodos históricos. Entretanto ele sempre faz o papel de um homem trabalhador esforçado, mas sem muito sucesso econômico e profissional, que acaba tendo algum tipo de encontro sobrenatural que o permite mudar de vida, mas que por ganância acaba perdendo suas conquistas ou sacrificando algum bem mais importante que a riqueza. Algumas vezes os personagens interpretados por Salaryman Yamada são arrastados para os problemas sobrenaturais por Nezumi Otoko e em diversas ocasiões eles aprendem lições de moral, muitas vezes da forma dura ou trágica.

15
Miyamoto Musashi tem de lidar com um inchaço na testa que cresce mais a cada dia em Cobu (O Caroço).

Já nos anos 1970, Mizuki acabou sendo influenciado pelo estilo do Shounen dos Anos 1970. Kitarou, mais maduro, passa a atuar como um “herói da justiça”, enfrentando youkai malignos e auxiliando pessoas com problemas. Já Nezumi Otoko, apesar de ainda agir principalmente motivado por interesses próprios, acaba muitas vezes colaborando com Kitarou e se torna menos inclinado a cometer atos de crueldade ou assassinatos. Nesse período, a influência do Shounen dos Anos 1970 também é formal, sendo que Mizuki tende a desenhar seus personagens sob influência do abstracionismo icônico de Tezuka em cenários naturalistas e com uso complexo de retículas comuns na tradição do estilo Gekiga.

16
Kitarou e Nezumi Otoko em uma cidade litorânea pobre antes de embarcarem em uma aventura contra youkai estrangeiros malignos ao estilo do shounen dos anos 1970 em Kitarou no Sekai Obake Ryokou (Turnê Mundial Assombrada do Kitarou), 1976.
17
Medama Oyaji é sequestrado por um youkai estrangeiro com uma curiosa técnica de hovercraft.
18
Dracula e os youkai estrangeiros

A influência da obra de Mizuki na História em Quadrinhos japonesa é difícil de se mensurar. Foi construída em Sakaiminato a Mizuki Shigeru Road, uma rota turística dedicada ao autor repleta de estátuas de seus personagens. Várias cidades japonesas possuem monumentos dedicados ao seus youkai locais elaborados a partir das ilustração de Mizuki e de seu trabalho de resgate destas lendas. As histórias de Kitarou foram adaptadas para sete séries animadas diferentes, exibidas, respectivamente de 1968 a 1969, 1971 a 1972, 1985 a 1988, 1996 a 1998, 2007 a 2009, 2008 e 2018 a 2020, além de um longa metragem animado em 2008, dois longas live-action de 2007 e 2008 e vários videogames. Mizuki foi o responsável por recuperar vários temas, tropos, personagens e tradições da arte tradicional japonesa sobre assuntos sobrenaturais e os deu vida extra permitindo que sobrevivessem em linguagens modernas, como a História em Quadrinhos e Animação e os legando a uma série de autores que viriam depois. Um desses autores marcadamente influenciados por Mizuki foi Tsuge Yoshiharu (1937-), que trabalhou como seu assistente durante o período de Mizuki publicando pela Garo. Tsuge, em sua obra, deu continuidade a vários dos temas de Mizuki, como o do estranhamento com o sobrenatural e o bizarro presente no cotidiano de pessoas tentando sobreviver às dificuldades da vida. A famosa história em quadrinhos de Tsuge, Nejishiki, que conta a história de um garoto misterioso que surge do mar com um machucado no braço e caminha em busca de um médico por uma cidade japonesa arrasada pela guerra tem muitos dos seus elementos influenciados pela produção de Mizuki. Nejishiki apresenta um sujeito sobrenatural que tenta resolver um problema cotidiano em um contexto de pobreza no qual a maioria das pessoas só pensa em vantagens próprias retoma vários dos temas discutidos por Mizuki. Morohoshi Daijiro (1949-), outro importante quadrinhista de histórias em quadrinhos a partir dos anos 1970 sobre temas de youkai, sobrenatural e terror foi outro dos autores influenciados por Mizuki. Morohoshi produziu várias histórias sobre contos fantásticos folclóricos, narrativas populares e lendas urbanas modernas, muitas vezes valendo-se da temática do horror. Morohoshi foi responsável por levar para a demografia seinen os temas introduzidos nas histórias em quadrinhos japonesas por Mizuki e influenciou vários autores de quadrinhos de terror japoneses posteriores e também importantes animadores, como Miyazaki Hayao (1941-) e Anno Hideaki (1960-). Takahata Isao (1935-2018) foi outro animador influenciado pelos temas de Mizuki de resgate das narrativas sobre o mundo youkai e lendas do Japão clássico, chegando ter atuado como responsável pelos story boards das duas primeiras séries animadas de Gegege no Kitarou antes da fundação do Studio Ghibli.

21
catalogação de youkai

Quase todas as séries de histórias em quadrinhos baseadas em temas de youkai ou no terror inspirado em mitos tradicionais japoneses acabam de alguma forma sendo influenciadas, citando ou homenageando o trabalho de Mizuki, que foi o responsável por introduzir o gênero nos quadrinhos japoneses. E mesmo obras estrangeiras que se propõem a tratar de temas do sobrenatural japonês acabam citando-o. Entre os inúmeros exemplos, temos o ataque especial Reigun (Arma de Fogo Espiritual) de Urameshi Yuusuke — protagonista de Yuu Yuu Hakusho (1990-1994) de Togashi Yoshihiro (1966-) e que atua como detetive investigando e combatendo casos que envolvem youkai malignos de forma similar a Kitarou — ser baseado no ataque especial de Kitarou, Yubi Teppou (Arma de Fogo de Dedo), no qual ambos os personagens disparam uma rajada sobrenatural da ponta do indicador. Ou ainda o protagonista da animação estadunidense Kubo and the Two Strings (Kubo e As Cordas Mágicas, na tradução brasileira) de 2016, que remete a mitos tradicionais japoneses, parecer com Kitarou, inclusive tendo uma franja cobrindo a cicatriz de um olho esquerdo ausente.

Kubo
Kubo, em Kubo and the Two Strings, 2016

Em sua atuação como escritor, ilustrador, quadrinhista e pesquisador várias vezes premiado, Mizuki Shigeru foi extremamente importante não só para a História em Quadrinhos, mas para toda a cultura popular e tradicional japonesa, servindo como ponte que permitiu que narrativas, valores e mitos da cultura japonesa do passado que estavam prestes a se perder sobrevivessem na cultura japonesa da contemporaneidade. Bem como sua vasta e múltipla obra marcou profundamente as gerações posteriores de autores e artistas que deram continuidade ao seu legado e o fizeram o grande pai dos quadrinhos de terror e sobrenatural japoneses.

22
catalogação de youkai
23
catalogação de youkai

Referências

MIZUKI Shigeru. Hakaba Kitarou. Vol. 2. Kashihon Manga Fukkokuban. Toukyou: Kodokawa Shoten, 25 de setembro de 2006.

MIZUKI Shigeru. Kitarou no Sekai Obake Ryokou. Power Comics. Toukyou: Futabasha, 10 de novembro de 1980.

MIZUKI Shigeru. Nihon Kijinden. Sun Comics. Toukyou: Asahi Sonorama, 10 de novembro de 1966.

Youkai Mandala: Shigeru Mizuki no sekai. Saishinban [edição atualizada]. Bigman Special. Toukyou: Sekai Bunka-sha, 2010.

2 comentários em “Antes da Floresta Gegege: “Hakaba Kitarou” e o despertar do sobrenatural nos quadrinhos japoneses

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s