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Sand Land, edição tankoubon

Sand Land é uma história em quadrinhos escrita e desenhada por Toriyama Akira (1955-) composta de treze capítulos e um epílogo publicada na Weekly Shounen Jump entre junho e setembro de 2000 e posteriormente em uma edição encadernada tankoubon em volume único lançada na data de 7 de novembro de 2000.

A história da HQ se passa em um país chamado Sand Land que, após passar por uma grande guerra, tornou-se uma região desértica extrema. A única fonte de água da população é a distribuição controlada pelo Rei do país que, para demonstrar sua “generosidade” à população em sofrimento, reduziu o preço da garrafa PET contendo 500 ml de água de ¥ 1000 para ¥ 900 (aproximadamente de R$ 33,00 para R$ 30,00). Nesse contexto, um xerife de uma pequena cidade e ex-militar chamado Rao se dirige até outra pequena cidade habitada por mamano (coisas demoníacas) para fazer uma proposta. Rao viu pássaros pescadores voando em direção ao sul e acredita que, em algum lugar no sul do reino, há uma nascente de água não mapeada. Assim, sabendo que a jornada seria perigosa para ser percorrida sozinho, convida os mamono a acompanhá-lo em uma missão em busca da hipotética fonte de água. Os mamo são uma comunidade composta por diferentes tipos de demônios e monstros, originados de mitologias ocidentais e japonesa, que habitam Sand Land, mas vivem vila isolada, sendo tratados com medo e desconfiança pela população humana, e governados por um Daimaoh (Grande Rei Demoníaco) chamado Satan. Os mamono, que também sofrem com a escassez de água e sobrevivem de pequenos saques aos comboios de água do Rei de Sand Land, aceitam a proposta de Rao sob a condição de ajuda mútua e do compartilhamento dos recursos hídricos eventualmente descobertos entre os habitantes da cidade de Rao e da cidade dos mamono. Assim, partem junto com Rao em sua missão rumo ao sul Beelzebub, o Akuma no Ohji (Príncipe do Diabo) e filho do Daimaoh Satan, e o velho demônio Thief, o sábio conselheiro e experiente ladrão a serviço do Daimaoh. O Príncipe Beelzebub, apesar de ser um demônio, é o típico protagonista das narrativas de Toriyama: um garoto absurdamente forte e ágil para seu tamanho e idade, que gosta de aventuras e tem um coração bom.

 

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Xerife Rao

Logo após partirem rumo ao sul, o trio acaba perdendo seu veículo e a maior parte dos suprimentos, ficando sem perspectivas de sobreviverem ao deserto. A situação muda quando se deparam com um tanque de guerra pertencente ao exército real, o qual percebem ser o veículo ideal para completar sua jornada. Assim, usando a experiência militar do Xerife Rao, o trio rouba o tanque e faz dele seu instrumento para realizarem sua missão. Entretanto o roubo do tanque também faz com que se tornem inimigos públicos, caçados pelas forças armadas e difamados pela mídia controlada pelo Estado, passando a serem vistos como uma ameaça à sociedade pela população. Assim, a história se desenvolve enquanto o trio, em seu tanque de guerra roubado, dirige-se ao sul em busca da suposta fonte de água desconhecido para levar água para seu povo enquanto são atacados física e moralmente pelos militares e pela imprensa.

 

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Príncipe Beelzebub

Ao longo da jornada duas importantes informações são reveladas. A primeira é feita pela imprensa ao divulgar que o homem procurado pelo roubo do tanque militar, o Xerife Rao, trata-se do anteriormente influente e exemplar General Shiba, um membro do alto comando das forças armadas reais que se destacou por suas habilidades estratégicas e que teve um grande papel na vitória do reino durante a grande guerra e que, marcado por toda a violência do combate, desistiu de sua patente no serviço militar e da possibilidade de se tornar um influente homem na administração do Estado para viver uma vida simples e comunitária como xerife de uma pequena cidade. Tal revelação faz com que o Estado de Sand Land considere os fugitivos uma ameaça ainda mais perigosa para a manutenção do status quo de sua sociedade, fazendo com que diferentes líderes militares queiram eliminar o Xerife Rao/General Shiba tanto para atingir renome ao ser conhecido como aquele que foi capaz de superar o lendário general, como para impedir que seu conhecimento sobre o ocorrido na guerra seja exposto.

 

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Thief e sua maestria com disfarces

A segunda revelação é feita pelo velho Thief quando conta que a grande guerra da nação de Sand Land contra o povo dos picchijin, que foi encerrada quando as forças armadas de Sand Land lançaram a Grande Bomba que arrasou completamente a comunidade Picchijin e a grande arma secreta que estavam construindo, não se deu conforme a narrativa oficial divulgada pelo Estado. A “arma secreta” que estava sendo construída pelos picchijin não era um aparato bélico, mas sim uma tecnologia capaz de criar água. Diante da ameaça ao monopólio do Estado sobre os recursos hídricos, o reino de Sand Land passou a considerar os picchijin uma ameaça à nação e iniciou uma guerra para destruí-los. Diante da revelação, o Xerife Rao sente-se ainda mais angustiado com sua participação na guerra e passa a entender que, mesmo tendo sido um general, ainda era apenas uma ferramenta a serviço do Estado.

O controle político de Sand Land cabe à duas figuras: o rei, que faz o papel de figura pública do Estado fazendo seus pronunciamentos através dos meios de comunicação em que conta sobre todo o esforço realizado pelas instituições públicas para levar água à população pelos menores custos possíveis, enquanto omite que vive uma vida de luxo nas piscinas de seu palácio sem se preocupar com questões administrativas, e o Dai Shogun (Grande General) Zeu, um velho decrépito que ocupa o mais alto posto militar de Sand Land e é responsável pelo comando das forças armadas bem como por todas as questões administrativas e governamentais de Sand Land. Esse modelo de organização estatal vigente em Sand Land é uma reprodução de um modelo tradicional na história japonesa. No final do século XII, quando o Japão deixou de ser controlado politicamente pelos nobres burocratas de Kyouto que cultuavam a cultura chinesa e passou a ser governado pelos nobres militares nacionalistas samurai, o título de Imperador e suas regalias foram mantidos, uma vez que toda a tradição política, normativa e religiosa japonesa o reconhecia como um pilar social. Entretanto a administração prática do Japão ficou a cargo do Shogun, o líder político samurai que era responsável pela guarda do Imperador e, assim, determinando o quanto este poderia interagir com o resto da população do país. Aquele que tivesse o controle sobre o Imperador e sua corte, desde que garantisse seu status de autoridade formal máxima do país, estaria legitimado a agir em seu nome, bem como a administrar o império na pratica. Essa relação simbiôntica é a mesma existente entre o Rei e o Grande General de Sand Land, em que o primeiro atua como símbolo nacional e vive em sua vida de regalias e formalidades legitimando o Estado, enquanto o segundo governa Sand Land na prática e, ao realizar a manutenção do sistema econômico e social vigente e dos privilégios do Rei em nome deste, também sustenta a sua própria posição e privilégios.

 

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o Tanque 104

Ao serem perseguidos pelas forças armadas de Sand Land, que tentam deter ou destruir o trio protagonista, o Xerife Rao usa de suas habilidades e experiência militar para incapacitar seus oponente, mas, ao mesmo tempo, sem feri-los ou matá-los. Rao percebe que os soldados de baixa patente do exército de Sand Land são tratados pelo Rei e pelo Grande General Zeu apenas como ferramentas para realizarem seus propósitos como ele foi um dia. Tanto o Xerife Rao quanto os soldados que o perseguem têm como objetivo servir Sand Land, mas tratam-se de duas perspectivas diferentes de dedicação à pátria. Rao é um patriota, ele ama Sand Land sabendo que o reino é composto pela integração de seu povo. Rao ama os indivíduos que vivem em Sand Land é quer servir ao reino melhorando a vida destas pessoas que o integram. O patriotismo é um conceito que só que concretiza como ação, é o amor pela nação consumado na forma de um agir que intenta melhorar a condição de seu povo. O patriotismo é a crença na realização do indivíduo através da ação que promove o bem de seu povo. É com esse intuito que Rao rouba um tanque do exército, que deveria ser um instrumento público à serviço da população, para usá-lo na tentativa de localizar uma fonte de água gratuita para os habitantes de Sand Land. Já os soldados do exército real e a população de Sand Land foram condicionados pelo Rei e pelo Grande General a servirem seu país não como patriotas, mas sendo nacionalistas. Ou seja, a eles foi ensinado que servir ao reino significa respeitar, cultuar e ser leal às instituições e símbolos da nação. O nacionalismo é a crença na nação como princípio organizador necessário e absoluto de uma sociedade, e o nacionalismo torna-se um caminho mais fácil do que o patriotismo porque ele não exige uma ação ou prática que depende de esforço e promova o bem. A simples crença na grandiosidade da nação e o respeito e culto aos seus símbolos é o suficiente para que o sujeito nacionalista sinta que já fez sua parte pelo seu país e satisfaça sua consciência mesmo sem ter concretizado nenhuma realização em prol do bem comum. Já a postura patriota do Xerife Rao contrasta com os ideia nacionalistas quando ele, diante dos soldados das forças armadas do Rei que querem destruí-lo, trata-os com respeito e apresenta sua postura de maneira didática revelando as reais motivações por trás da guerra acreditando que, diante da verdade, os homens das baixas batentes das forças armadas escolherão lutar pela população de Sand Land e não pelas autoridades que enriquecem valendo-se do discurso nacionalista e dos instrumentos do Estado.

Ainda, dentro do contexto nacionalista de Sand Land, o Rei e o Grande General Zeu levaram sua população a acreditar em uma confusão entre aparato estatal e povo. Ao levar a população do reino a não conseguir distinguir as instituição do Estado dos sujeitos que compõem o Estado, os administradores do reino fizeram com que seus súditos odiassem os inimigos dos primeiros como se também fossem dos segundos. Dessa forma, Sand Land existe através de uma segregação. Os mamono e os picchijin foram marginalizados pelo Estado. Os mamono, por não se sujeitarem ao domínio central da coroa e por serem fortes demais para serem aniquilados, passaram a ser apresentados para a população como sendo uma ameaça para a integridade de Sand Land, indivíduos que devem ser temidos e evitados. Já os picchijin, por desenvolverem uma tecnologia que ameaçava a organização econômica que colocava os administradores do Estado em uma posição de privilégio e no controle dos recursos foram apresentados pela propaganda estatal como inimigos do povo, desenvolvedores de armas, e foram aniquilados por soldados compostos por membro da população explorada que foram obrigados a lutar. Tanto os mamono como os picchijin foram apresentados como inimigos da nação quando de fato eram apenas inimigos dos administradores do Estado, que valeram-se do discursos nacionalista e da confusão entre instituições estatais e povo para colocar a população humana contra eles.

 

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Atravessando o deserto.

O próprio Xerife Rao, mesmo tendo deixado para trás sua antiga vida de general e viver carregado de culpa e arrependimento, começa a história sem conseguir fazer uma distinção plena e consciente ente as instituições estatais e os interesses do povo do reino. Ele só se torna consciente da condição diversa dos dois conceito quando seu grupo finalmente encontra o lago secreto. Às margens do lago, que se localiza no centro de uma montanha rodeada pelo deserto sem fim, há todo um ecossistema complexo e autossustentável habitado por uma grande variedade de vegetação e de animais. A princípio, o Xerife Rao, o Príncipe Beelzebub e Thief acreditam que o lago pode ser a salvação do seu povo, mas então se deparam com o fato de que o lugar é habitado pelos últimos sobreviventes picchijin, que vivem de maneira rústica tendo perdido toda sua tecnologia avançada e riqueza material. Assim, os protagonista acabam diante de um dilema: o lago secreto poderia ser usado para fornecer água para a cidade de Rao e para a vila dos mamono e talvez ainda para outras pessoas, mas a divulgação e exploração daquele ecossistema levaria ao extermínio completo do povo picchijin. Salvar sue povo da seca tornaria Rao e Beelzebub colonizadores e os colocaria em uma posição de dominância e opressão similar à aquela que os indivíduos que controlam o Estado têm em relação ao povo de Sand Land. E a exploração do lago serviria apenas para fornecer água a uma pequena parcela da população de Sand Land, não se constituindo uma solução definitiva e geral para o problema da seca. Nesse momento o Xerife Rao e o Príncipe Beelzebub percebem que seu verdadeiro inimigo não é um dos diferentes povos que vive em Sand Land, nem os soldados que os caçam, os habitantes que os denunciam às autoridades com o intuito da recompensa que receberão e que os ajudará a sobreviver no deserto, nem os saqueadores que os atacam ao longo da viagem atrás de seus mantimentos e recursos. O inimigo do trio de protagonistas e da população de Sand Land é o aparato estatal do reino que é utilizado para manter a relação de dependência econômica da população em relação à distribuição hídrica por preços abusivos controladas pelo Rei e protegida pelas forças armadas. Ao perceberem isso, Rao, Beelzebub e Thief compreendem que a única forma de melhorarem a qualidade de vida de todos os povos de Sand Land é destruindo o monopólio real sobe o controle da água e, desta forma, partem para atacar o Rei e o Grande General Zeu sabendo que o patriotismo, o agir em prol do bem comum do reino, só pode ser alcançando confrontando suas instituições, que não se confundem com o próprio reino.

 

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Beelzebub encontra os sobreviventes picchijin.

Rao acaba sendo uma força integradora do reino. Ele sabe que apenas com a colaboração entre humanos e mamono, com a participação dos soldados enganados e transformados em instrumento pelo Rei e pelo Grande General, bem como reconhecendo o direito de existência e autodeterminação dos picchijin e o direto de todos ao acesso gratuito aos recurso, neste caso a água, é que o objetivo em comum pode ser alcançado. Porque é a coexistência de todos os habitantes de Sand Land que constitui o reino, e não as normas e instituições impostas pelo Rei e seus oficiais. Humanos, mamono, picchijin, camponeses, soldados, saqueadores não são inimigos. Todos os conflitos ocorridos entre esses grupos deram-se pela falta de acesso à água. Uma vez que o acesso à água torne-se amplo e irrestrito, tais conflitos tornar-se-iam desnecessários. Assim, o inimigo de Sand Land são aqueles que impedem a distribuição desses recursos.

Os desenhos de Sand Land seguem o estilo tradicional de Toriyama usado antes em Dragon Ball, com paisagens desérticas detalhadas todas compostas por linhas finas. O que mais se destaca, além dos designs de alguns monstros, são os designs mecânicos, principalmente o do tanque que acaba se tornando um dos personagens da narrativa. Segundo Toriyama, ele havia decidido escrever e desenhar uma historia sobre um homem em um tanque de guerra, mas encontrou dificuldades em desenhar o veículo de forma satisfatória. Após quase desistir da HQ, decidiu tratá-la como um desafio a ser cumprido e se dedicou a ela, sem utilizar ajuda de assistentes, como uma meta de superação. Toriyama embarcou em uma jornada em busca de superação ao realizar Sand Land ao mesmo tempo em que conduzia seus personagens em uma jornada por sua redenção. Apesar da tradição de Toriyama com histórias envolvendo batalhas, e do Príncipe Beelzebub se parecer muito com os protagonistas jovens lutadores do autor, há, perto do final da história, apenas uma única cena de combate ao estilo de Toriyama. A HQ tem uma estrutura narrativa muito mais próxima da de um road movie do que de um battle shounen.

 

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Daimaoh Satan

Ainda, o pai de Beelzubub e rei dos mamono, Daimaoh Satan, é extremamente parecido com Darbura, o personagem de Dragon Ball que é apresentado como Makai no Oh (Rei do Mundo Demoníaco). Entretanto nenhum das enciclopédias e guias de Dragon Ball cita os eventos ou personagens de Sand Land como parte de sua cronologia, o que leva a crer que a similaridade entre Satan e Darbura é apenas uma brincadeira feita por Toriyama e não que exista uma relação de continuidade entre as diegeses das duas obras.

 

 

 

O Xerife Rao é um patriota porque, diferente do nacionalista que acredita que cumpriu seu papel e dever com seu país ao venerar e propagar o seus símbolos e exigir que os indivíduos à sua volta também os respeitem e cultuem, o patriotismo só existe como ação, como um impulso de estar sempre realizando ações concretas para o bem dos diferentes seguimentos da população que compõem o país. O patriota nunca sente conforto porque sabe que sempre há mais para ser feito. Assim, tendo completado sua missão, o Xerife Rao e seus companheiros mamono saem em uma nova missão para resgatar e integrar os picchijin, porque sabem que um indivíduo só consegue ser um membro e agente de fato de sua pátria quando entende que aqueles que são diferentes e marginalizados, mesmo que sejam apresentados pelo aparato estatal como inimigos, são tão necessários à pátria quando ele.

 

Referências

TORIYAMA Akira. Dragon Ball. Edição tankoubon. Vol. 38-39. Jump Comics. Toukyou: Shueisha, 1994.

TORIYAMA Akira. Sand Land. Edição tankoubon. Jump Comics. Toukyou: Shueisha, 2000.

2 comentários em ““Sand Land”, Patriotismo versus Nacionalismo no resgate do país

    1. Oi! O Daimaoh Satan ser o Darbura em um futuro distante é uma possibilidade de interpretação que provavelmente o Toriyama construiu com esta intenção. Mas, como comentei no texto, não achei nenhuma informação que coloque “Sand Land” na cronologia oficial de “Dragon Ball” em nenhum dos guias da série. Então é uma interpretação que fica em aberto sem resposta definitiva.
      Agradeço pelo elogio!

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