Rafael Machado Costa

The Simpsons (Os Simpsons) é uma série de animação  criada por Matt Groening (1954-) que teve sua estreia em 1989 e continua em produção e exibição até hoje. Em 1993, Groening junto com Steve Vance, Cindy Vance e Bill Morrison (1959-) criaram a Bongo Comics Group, uma editora dedicada à publicação de histórias em quadrinhos, inicialmente tendo como protagonistas os personagens de Groening, e posteriormente passando a publicar obras de outros autores.

No vigésimo primeiro episódio da segunda temporada de The Simpsons, Three Men and a Comic Book, que foi exibido pela primeira vez em 9 de maio de 1991, Bart, Milhouse e Martin combinam suas economias para comprarem em conjunto a primeira edição de Radioactive Man (Homem Radioativo), uma história em quadrinhos ficcional que tinha como protagonista o super-herói homônimo. Em 1993, a Bongo Comics lançou entre seus quatro títulos de estreia uma série de histórias em quadrinhos intitulada Radioactive Man.

Radioactive Man teve um primeiro volume composto de seis edições bimestrais, uma edição especial e mais quatro capítulos publicados em diferentes números de Simpsons Comics tendo como equipe criativa principal o casal Vance e Morrison. Apesar de se tratar de histórias em quadrinhos com a temática de super-herói, Radioactive Man tem uma importante peculiaridade: parte do pressuposto de que se trata de uma narrativa ficcional dentro de outra narrativa ficcional, criando um efeito de metalinguagem e mise en abyme que lhe permite explorar de maneira única a história e tradição dos quadrinhos de super-heróis dos EUA. A premissa da série é que cada uma de suas edições trata-se de uma cópia de um dos exemplares publicados dentro do universo narrativo de The Simpson em um diferente momento histórico, cujo contexto cultural simula o contexto histórico real dos EUA no momento em que a edição teria sido originalmente publicada.

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Radioactive Man: Radioactive Repository – Volume One, Bongo Comics Group, 2012

A edição de luxo em capa dura que reúne todo o conteúdo do volume um da série, Radioactive Man: Radioactive Repository – Volume One, inicia com uma introdução que teria sido escrita por Morton Mankiewicz, um artista aposentado que vive no asilo para idosos de Springfield — cidade na qual habitam os personagens de The Simpsons — e teria criado o personagem Radioactive Man no ano de 1952. No texto ficcional, Mankiewicz constrói um cenário fictício do panorama editorial da década de 1950, que, ao mesmo tempo, mistura comédia e práticas reais do período, como a queda das vendas dos quadrinhos de super-heróis, a ascensão das histórias com temáticas de crimes e horror, a participação massiva de autores judeus no mercado de produção de histórias em quadrinhos dos EUA e a baixa remuneração recebida pelos artistas do período por personagens que posteriormente faturariam milhões para suas editoras. Após e introdução assinada por Mankiewicz, há ainda uma apresentação que supostamente teria sido escrita por Paul Dini (1957-), editor, roteirista e produtor ligado ao mercado de quadrinhos e principalmente à editora DC Comics, em que narra a importância de Radioactive Man em sua vida, descrevendo as influência que teve do personagem e toda uma série de produtos licenciados que teria sido lançados desde sua criação até a década de 1990, incluindo uma série animada cujos designs, contidos no texto, simulam a estética das séries animadas dos personagens da DC de autoria de Bruce Timm (1961-).

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Radioactive Man #1, 1993, Bongo Comics Group

A primeira edição de Radioactive Man, de 1993, tem como fictícia data de publicação o ano de 1952. Nessa edição há duas histórias. A primeira, The Origin of Radioactive Man (A Origem do Homem Radioativo), tem roteiros de Steve e Cindy Vance, desenhos de Steve, arte-final de Morrison e cores de Cindy. Nela somos apresentados ao protagonista, Claude Kane III, uma mistura caricata de Clark Kent e Bruce Wayne. Claude é um playboy que vive em uma mansão com seu pai, o cientista Claude Kane II, sem saber o que fazer de sua vida. Ele é apaixonada pela repórter de um canal de rádio, Gloria Grand, que evita sua companhia por considerá-lo um inútil e preguiçoso. Claude é extremamente desatento e, mesmo diante de pistas óbvias de que um grupo de espiões comunistas pretende roubar a pesquisa de seu pai para a construção de uma bomba atômica, acaba na área de testes apenas acidentalmente. Atingido pela explosão, Claude descobre que recebeu incríveis poderes vindos da “pura e limpa” energia atômica, além de ter uma farpa metálica que lembra o formato de um raio cravada no topo de seu crânio. Assim, Claude usa seus poderes para quase acidentalmente capturar os espiões comunistas e, com o intuito de proteger seus entes queridos, assume a identidade de Radioactive Man. A história brinca com vários clichês da Era Atômica dos quadrinhos — o período da produção do final da Era de Ouro, após a Segunda Guerra Mundial e até o final da década de 1950, em que os quadrinhos de super-heróis passaram a ter baixas vendas —, simulando enquadramentos da imagem típicas do período, redundâncias em que os personagens repetem em suas falas o que está sendo mostrado expressamente nos desenhos e que também é afirmado no quadro de narração.

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IMG_1394A segunda história da edição, Dr. Crab’s Commie Comics (Quadrinhos Comunistas do Dr. Crab), apresenta o arqui-inimigo de Radioactive Man — que já havia sido citado no mesmo episódio da série que apresentou o herói —, Vladimir Krabokov, vulgo Dr. Crab (Doutor Caranguejo), um espião e cientista comunista que pretende, como ele afirma repetidamente de maneira estereotipada, destruir o capitalismo. A história tem como cenário a discussão sobre as histórias em quadrinhos serem instrumento catalisador de delinquência juvenil estimulada pelo editor da revista com protagonistas adolescentes J. J. Belwether — inspirado em J. L. Goldwater (1916-1999) — e pelo psicólogo Hedrick Hertzmann — inspirado em Frederic Wertham (1895-1981) — responsabilizando os quadrinhos com temática de crimes e de horror de William G. Maimes — inspirado em Bill Gaines (1922-1992), editora da EC Comics — por corromper os jovens americanos levando-os à delinquência e ao comunismo. Toda a história reconstrói o cenário de caça às bruxas contra as histórias em quadrinhos vivenciada nos EUA durante a década de 1950 e a criação do Comic Code Authority, que regulava a produção de quadrinhos segundo preceitos morais conservadores. Além de reproduzir a estrutura narrativa e estética das histórias em quadrinhos de super-heróis do final da Era de Ouro, a narrativa tem como tema a própria história da História em Quadrinhos da década de 1950. Vale destacar o quanto Claude Kane III/Radioactive Man é mostrado como um homem estadunidense conservador médio do período. Ele próprio é um dos primeiros a se convencer de que as histórias em quadrinhos são um instrumento para provocar a decadência da cultura estadunidense que defende. Esse discurso se torna interessante e crítico quando defendido justamente por um protagonista de uma história em quadrinhos. Mas Radioactive Man não defende o capitalismo e o imperialismo e considera o ato de questionar autoridades um crime de natureza gravíssima por tentar defender um sistema de exploração que mantém seus privilégios. Ele simplesmente o faz de maneira ingênua e acrítica, reproduzindo um discurso nacionalista sem questionar o que ele representa de fato. Seu arqui-inimigo, o Dr. Crab, também é um personagem raso e acrítico. Simplesmente tem como objetivo destruir o capitalismo, mas não possui um embasamento ou objetivo moral para fazer isso. O confronto entre herói e vilão se dá de maneira tão maniqueísta que os faz metacaricatos e, ao mesmo tempo, críticos à estrutura de dicotomia entre herói e vilão da Era de Ouro. Ao final, Radioactive Man acaba auxiliando na criação do código de censura dos quadrinhos e se vê como um herói por ter colaborado para a manutenção de uma organização social que remove tudo que possui potencial “subversivo” e que pode questionar o status quo cultural.

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Radioactive Man vs. Dr. Crab

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Radioactive Man #88, 1994, Bongo Comics Group

A segunda edição de Radioactive Man¸ publicada em 1994, simula um salto no tempo, como se tratasse de um exemplar antigo qualquer encontrado aleatoriamente, e traz em sua capa o número “88” e a data de maio de 1962. Nela temos a história The Molten Menace of Magmo, The Lava Man (A Ameaça Fundida de Magmo, O Homem de Lava) dividida em três capítulos. Nessa edição, os Vance e Morrison simulam a estética dos quadrinhos da Marvel do início da década de 1960, principalmente os criados em parceria entre Stan Lee (1922-2018), Jack Kirby (1917-1994) e Steve Ditko (1927-2018). A história começa mostrando Radioactive Man junto com a equipe Superior Squad (Esquadrão Superior), responsável pela proteção de Zenith City e dos EUA, e se desenrola até o confronto do protagonista e seu sidekick, Fallout Boy (Garoto Partícula Radioativa), com Magmo, O Homem de Lava do mundo subterrâneo. As referências nessa história são apropriadas da tradição da Era de Prata e dos quadrinhos da Marvel da década de 1960, principalmente as histórias do Homem-Aranha de Lee e Ditko. Os efeitos e sombreamento e luminosidades e os designs de maquinários simulam a estética de Kirby. A quantidade de diálogos redundantes em relação à narração e às imagens aumenta ainda mais. Os personagens fazem várias referências a eventos que teriam acontecido anteriormente, havendo notas explicativas dos autores indicando em quais edições — que de fato jamais existiram — estes eventos poderiam ser encontrados simulando o sistema de referências e continuidades estabelecido por Lee na produção da Marvel do período. Ainda, segundo a tradição da Marvel dos anos 1960, todos os personagens tem “problemas humanos”, apesar de um tanto ridículos, que os atormentam e tomam mais de seu tempo do que a ameaça do vilão — que não é um espião ou criminoso, mas um monstro típico da tradição de Kirby — a quem tem de enfrentar. Claude Kane III vive no eterno dilema de ter de conviver com o raio cravado em seu crânio e precisar usar o tempo todo um chapéu para escondê-lo, acreditando que isto e as responsabilidades de sua vida heroica o impedem de ter um relacionamento verdadeiro com Gloria Grand, que na verdade não dá a mínima para ele e prefere evitá-lo. Fallout Boy, cuja identidade é Rod Runtledge, o vizinho de Gloria que perdeu os pais em um acidente e cujo irmão gêmeo foi dado como desaparecido tendo de viver com sua tia idosa, relembra de como ganhou seus poderes ao encarar as frustrações de não poder reagir às agressões dos valentões de sua escola sem revelar sua identidade secreta e ainda cuidar de sua tia doente. Captain Squid (Capitão Lula) é apaixonado por sua colega do Superior Squad, Lure Lass (Moça Atraente), mas não tem coragem de revelar seus sentimentos acreditando que a heroína jamais amaria alguém cujos dedos por baixo das luvas são tentáculos. Já Lure Lass é apaixonada por Captain Squid e não revela seus sentimentos por acreditar que seu comportamento distante indique não se importa com ela. Já Brave Heart (Coração Valente) — uma mistura caricata de Capitão América e Homem de Ferro que está sempre com algum tipo de ferimento — é na verdade o milionário Miles Mando, financiador do grupo de heróis, mas sofre sozinho por não poder revelar sua identidade secreta para os colegas, bem como ter cada vez mais dificuldades em financiar o grupo devido ao fato de acreditar que o governo se corrompeu ao não achar mais tão interessante comprar as armas que produz para utilizá-las em guerras em países do terceiro mundo. Os autores mais uma vez brincam com a paranoia anticomunista nas motivações dos heróis e com as expectativas otimistas que beiram à banalização dos efeitos colaterais da energia nuclear. Radioactive Man e Fallout Boy, apesar de seus sofrimentos psicológicos vindos de suas vidas pessoais, quando estão atuando como heróis fazem piadas com o vilão durante a batalha, como faria o Homem-Aranha e outros heróis da Marvel em situações semelhantes. Ainda, conforme a tradição da Era de Prata, o vilão, que é uma força fantástica vinda de fora da sociedade para desestabilizar seu status quo, é derrotada não com força física pura, mas através de estratagemas de pretensões lógicas.

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Superior Squad
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Radioactive Man e Brave Heart
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Bug Boy
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Rod Runtledge/Fallout Boy

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Radioactive Man #216, 1994, Bongo Comics Group

O terceiro número da série traz em sua capa a numeração “216” e a data de agosto de 1972 e tem como título de sua história See no evil, hear no evil! (Não veja mal algum, não ouça mal algum!). A história usa com referência a produção do início da Era de Bronze, principalmente o título Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Dennis O’Neil (1939-) e Neal Adams (1941-). Ela começa com Claude Kane III em Washington se deparando com uma manifestação pacífica diante da Casa Branca que o leva a assumir a identidade de Radioactive Man para enfrentá-la. No tumulto que se desencadeia — por culpa de Radioactive Man —, o protagonista se depara com Miles Mando que, após ir à falência, passou a frequentar círculos do movimento de contracultura e assumiu a nova identidade de Bleeding Heart (Coração Sangrando). Juntos, os dois heróis saem em uma viagem para descobrir o paradeiro de Rod Runtledge, que Radioactive Man desconfia que se tornou um hippie. A história mostra os dois heróis viajando pelo interior do país, enquanto Bleeding Heart apresenta a Radioactive Man contradições institucionais, que por sua vez em nenhum momento tem sua fé no sistema abalado. Os desenhos seguem uma tradição formal da Era de Bronze, usando composições que simulam enquadramentos fotográficos em plongée e contra-plongée, diagramação de páginas com quadros dispostos em ângulos oblíquos e representações de efeitos de psicodelia.

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Radioactive Man #412, 1994, Bongo Comics Group

A quarta publicação da série traz na capa o número “412” e a data de outubro de 1980. Nela, inspirada nas tramas do final da Era de Bronze, a história Dark Radioactive Man! (Homem Radioativo Escuro!) traz como principal referência o surgimento da Fênix e a Saga da Fênix Negra, arcos de histórias dos X-Men de autoria de Chris Claremont (1950-), David Cockrum (1943-2006) e John Byrne (1950-). A história começa com e chegada de Radioactive Man e Fallout Boy na estação espacial de Dr. Crab, que agora possui de fato a forma de um caranguejo humanoide e culpa o protagonista por isso. O vilão capturou todos os membros do Superior Squad e os mantém presos em tubos de estase, enquanto seu robôs gigantes atacam os heróis. Radioactive Man consegue salvar seus aliados, mas acaba morrendo. Em seu funeral, Fallout Boy finalmente remove o raio cravado no crânio de Radioactive Man, uma vez que sua vida não está mais em risco. Entretanto, sem o raio em seu cérebro, o potencial do poder de Radioactive Man é totalmente liberado, e ele revive ainda mais poderoso. Dominado pelo poder, o protagonista fica descontrolado e se volta contra seus aliados. A história tem várias referências às histórias dos X-Mem do final dos anos 1970 e início dos 1980. Os heróis ainda são representados sofrendo com seus dilemas internos, apesar de ridículos. Dr. Crab, agora como uma criatura que sofreu mutação, não pretende mais destruir o imperialismo segundo ideais comunistas caricatos, mas pretende assumir o controle do mundo maquinando junto com um grupo de milionários misteriosos que pretendem manipular o mundo usando sua influência política e econômica chamado Bonfire Club (Clube da Fogueira), fazendo uma paródia ao Clube do Inferno. Como era comum nas tramas do final da Era de Bronze, o verdadeiro vilão não era um personagem com intenções malignas, mas sim alguém cuja natureza da própria existência ameaça o universo. Nesse caso, o próprio Radioactive Man enlouquecido pelo seu poder que não pode controlar.

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Radioactive Man #679, 1994, Bongo Comics Group

O quinto número da série tem em sua capa a numeração “679” e a data de janeiro de 1986. Baseado nas mais marcantes influentes publicações de 1986, Crises nas Infinitas Terras, Watchmen e Cavaleiro das Trevas, traz a história Who washes the washmen’s infinite secrets of legendary crossover knight wars? (Quem lava os infinitos segredos do crossover das guerras lendárias do cavaleiro dos lavadores?). A história combina as tramas de escala monumental dos crossovers do final da Era de Bronze, como Guerras Secretas da Marvel e Crise nas Infinitas Terras da DC, com referências e estética do período que Mark Voger chama de Era das Trevas dos quadrinhos, que se tornou a corrente estilística dominante durante a década de 1980. A trama da história se inicia com a criação de uma nova lei que proíbe a atuação de vigilantes mascarados, exceto Radioactive Man, que continuará agindo sob as ordens do governo. A nova conjuntura política leva o protagonista a confrontar um amargo Miles Mando, agora atuando sob o codinome Heart of Darkness (Coração das Trevas), que se nega a cessar suas atividade como herói mascarado e alerta Radioactive Man da existência de uma grande conspiração para controlar o país das sombras. Entretanto uma estranha anomalia energética faz com que versões alternativas de Radioactive Man vindas de diferentes dimensões apareçam em Zenith City e se unam ao Superior Squad para enfrentar uma ameaça que pretende destruir o multiverso. Formalmente, as páginas iniciais da história simulam as diagramações e paletas de Watchmen e Cavalerio das Trevas, já as páginas finais são inspiradas nos enquadramentos de George Pérez (1954-) em Crise nas Infinitas Terras.

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Radioactive Man #1000, 1994, Bongo Comics Group

O sexto número da série traz em sua capa “1000” e a data de janeiro de 1995. Nele, a história In his own IMAGE (Em sua própria IMAGEM) tem como referência a produção de quadrinhos da editora Image do meado da década de 1990, principalmente Spawn de Todd McFarlane (1961-), e já se inicia com uma grande splash page impactante, seguida de composições com quadros sobrepostos, várias caixas de texto narrativo simultâneas com vozes de diferentes personagens e cores intensas. Na trama, Dr. Crab, após passar por uma nova mutação e se tornar o Prawn (Camarão), desafia Radioactive Man ameaçando tirar do ar todas as emissoras de televisão. Enquanto isso, Miles Mando, agora sob a identidade de Bloody Heart (Coração Sangrento), perde do controle de sua empresa para uma nova companhia, que assume as despesas do Superior Squad planejando transformar sua marca em produtos licenciados. A paródia na história se dá em relação aos exageros e tramas forçadas da produção de quadrinhos dos anos 90, inserindo na história inúmeros retcons propositadamente e apresentando um clone de Radioactive Man, exageradamente musculoso, que ressurge para substituir o herói. Durante a batalha, Prawn ativa seu Raio Regresso, fazendo com que história e seus personagens voltem no tempo até a década de 1940 e ao estilo da Era de Ouro. Além da estética das ilustrações assumirem as formas da Era de Ouro, centrada nos personagens, com cores chapadas e cenários vazios em uma sistema de representação de espaço justaposto, Prawn volta à sua forma humana de Dr. Crab, agora como um cientista nazista, enquanto Radioactive Man se torna o Radio Man, tendo  como referência as HQs do Capitão Marvel da Fawcett Comics.

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Além da minissérie principal, vinculada ao volume um de Radioactive Man foi publicada a história The Heroic Life and Mortifying Death of Radioactive Man (A Vida Heroica e a Morte Mortificante do Homem Radioativo) dividida em quatro capítulos nos números 36 a 39 de Simpsons Comics. Essa história, com roteiros de Bill Morrison e Kayre Morrison, teriam como numeração fictícia “160” e se passariam no final da década de 1960, colocando o Superior Squad contra uma organização de espionagem inspirada na Hidra da Marvel Comics. A principal referência usada e Nick Fury, Agente da SHILED de Jim Steranko (1938-), mas também há momentos baseados em Dr. Estranho de Ditko e nos tradicionais encontros anuais entre a Liga da Justiça América e a Sociedade da Justiça da América nas histórias posteriormente conhecidas como Crises nas Múltiplas Terras.

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Radioactive Man 80pg.COLOSSAL, 1994, Bongo Comics Group

Ainda, foi publicada uma edição especial Radioactive Man 80pg.COLOSSAL, contendo várias histórias com roteiros de Morrison e outros e desenhos de artistas variados, todas passadas durante a Era de Prata e tendo premissas um tanto absurdas que não deixam de fazer jus aos temas comuns à Era de Prata: The Radioactive Man of 1995! (O Homem Radioativo de 1995!), The 1,001 Faces of Radioactive Ape! (As 1001 Faces do Macaco Radioativo), Gloria Grand, Radioactive Girl! (Gloria Grand, A Garota Radioativa), To Betroth a Foe! (Desposando um inimigo!), Radioactive Man, Teen Idol! (Homem Radioativo, Ídolo Adolescente!), The Origin of Glowy, The Radioactive Dog (A Origem de Glowy, O Cão Radioativo), além de um esquema da fortaleza de Radioactive Man e de um guia de como desenhar o herói.

 

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Bartman meets Radioactive Man

Os personagens da série aparecem ainda em um segundo volume publicado entre 2000 e 2004 e no videogame da Acclaim lançado em 1992 para NES e Game Gear, The Simpsons: Bartman meets Radioactive Man (Os Simpsons: Bartman encontra O Homem Radioativo). No jogo, Fallout Boy leva Bart para o universo das histórias em quadrinhos para que ele reúna os poderes roubados de Radioactive Man e o liberte da Zona do Limbo em que foi aprisionado pelos seus inimigos. Os três vilões chefes de cada um dos três cenários do jogo são Swamp Hag (Bruxa do Pântano) — originalmente citada em um episódio da terceira temporada de The Simpsons —, Dr. Crab e Magmo the Lava Man. Além de ter como chefe final Brian-O the Magnificient (Cérebro-O, O Magnificente), que faz uma participação em The Heroic Life and Mortifying Death of Radioactive Man.

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Bartman contra Dr. Crab em Bartman meets Radioactive Man, Acclaim, 1992

A obra dos Vance e de Morrison, ao parodiar as tradições dos quadrinhos de super-heróis consegue ser hilária, didática e crítica simultaneamente. As piadas a partir do exageros dos clichês ressaltam as características estéticas e narrativas de cada época, divertindo e destacando para o leitor os dispositivos narrativos mais usados em cada estilo. Os autores constroem a narrativa misturando a história dos EUA com a história estética dos quadrinhos e fazendo inúmeras referências às HQs de cada período, reproduzindo cenas, citando autores e editoras, reconstruindo em seu universo versões de tramas de HQs que se tornaram famosas e influentes, permitindo aos leitores que conhecem o repertório se satisfazerem ao reconhecerem uma composição de capa, uma fala, cenário ou pequena referência de fundo.

As críticas sociais estão na representação do cenário político de cada período referenciado, desde o moralismo paranoico e anticomunista — que delegava às opiniões políticas diferentes e às críticas institucionais a responsabilidade por todos os problemas sociais — aos questionamentos de Gloria Grant aos heróis sobre a possibilidade de haver uma maior eficácia em suas ações de combate ao crime se, ao invés de patrulharem a cidade e atacar qualquer sinal de dissidência, usassem seus poderes para diminuir a pobreza e a desigualdade social. Questões que sempre eram ignoradas pelos vigilantes uniformizados. Ou ainda nas recorrentes participações de Richard Nixon (1913-1994) e de outros políticos estadunidenses. Apesar das diferenças narrativas de cada um dos capítulos e dos desenvolvimentos e adaptações dos personagens e conceitos do universo diegético ao qual pertence, Claude Kane III/Radioactive Man é o único ponto fixo, uma piada com os heróis dos quadrinhos que permanecem estáticos em seu status quo, tendo a mesma personalidade e comportamentos de um homem conservador dos anos 1950 que acredita que a maior ameaça à sociedade são os comportamentos subversivos e o questionamento das instituições. Em seu julgamento moral, Radioactive Man confunde justiça com criação e cumprimento das normas institucionais, e mistura patriotismo com submissão aos gestores do Estado. Dessa forma, suas ações heroicas se limitam a promover uma manutenção das condições sociais, forçando todos à sua volta a não se adaptarem aos novos contextos políticos e culturais, uma vez que ele não é capaz de realizar tal adaptação. Assim, contribui para a criação para um mundo seguro, no qual segurança significa que o próprio herói não precisa se dar ao trabalho de questionar seus comportamentos e posicionamentos. Em contraste com o protagonista, Miles Mando/Brave Heart/Bleeding Heart/Heart of Darkness/Bloody Heart é a eterna inconstância, sempre se reinventando conforme o espírito de tempo de cada época, tentando alcançar o sucesso seguindo a tendência do dia. Mando também transfere a responsabilidade moral de suas ações, uma vez que age guiado segundo o zeitgeist ou uma “vontade geral” abstrata do contexto histórico em que se encontra. Mando anula o potencial crítico da contestação quando a realiza mecanicamente por impulso de uma moda e não por convicção em seus ideais.

 

Radioactive Man é uma obra interessante para quem quer aprender sobre a história das histórias em quadrinhos de super-heróis e rir um pouco dela.

 

Referências

Bongo Comics Group. Disponível em: www.bongocomics.com
Radioactive Man: radioactive repository – volume one. Bongo Comics Group, 2012.

 

Para citar este artigo:
COSTA, Rafael Machado. “Radioactive Man”, a HQ Favorita de Bart Simpson: uma viagem através da história dos quadrinhos de super-heróis estadunidenses. In: Ilha Kaijuu. 17 de novembro de 2018. Disponível em: https://ilhakaijuu.com/2018/11/17/radioactive-man-a-hq-favorita-de-bart-simpson-uma-viagem-atraves-da-historia-dos-quadrinhos-de-super-herois-estadunidenses/

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